Estive hoje a ler as "Selecções do Reader’s Digest" e fiquei comovida com as histórias verídicas de duas pessoas que lutaram pelo ente que lhes era mais querido, lutaram até ao fim, pois a sua razão de viver era o bem-estar de quem mais amavam e a sua vida não fazia já mais sentido sem essa ajuda e luta diária. Gostaria de partilhar convosco as duas histórias destas pessoas que, embora distintas, têm em comum o constante amor e apoio, que nos ensinam a sermos melhores pessoas:
A razão de viver
Como o amor guiou um marido numa missão de 16 anos: cuidar da sua mulher, que muitas vezes não sabia quem ele era, nem quem era ela própria.
As ruas subitamente estranhas. O nome do hotel sumido da memória. Demasiadas questões sem resposta. Onde estou? Que cidade é esta? Os caminhos a confundirem-se, a estreitarem, num sufoco claustrofóbico que crescia e crescia e crescia desmesuradamente. A necessidade de respirar fundo, de sossegar, de ordenar ideias. Augusta encosta-se numa esquina, ofegante, a procurar laivos da realidade perdida. Lentamente, algum sossego: Budapeste, Maio de 1990. Sim, isso. Budapeste. 1990.
No outro lado da cidade, as horas teimam em passar. José está sentado em cima da cama, num quarto de hotel, e olha insistentemente para o relógio, como se a cada olhar pudesse constatar que o tempo, afinal, não galopou com tamanho destempero.
Maria Augusta chegou cinco horas depois do combinado ao quarto de hotel. O casal viajava em trabalho, e Augusta tinha ido assistir a uma conferência. Acostumada a correr o Mundo, desembaraçada, independente, nada faria prever que não soubesse encontrar o caminho de volta ao hotel. Ao entrar, disfarçou o desespero que a inquietava: «Estive a ver umas montras e perdi um bocado a noção dos caminhos.»
Nesse momento, José Imaginário Monteiro soube. Não era a primeira vez que a confusão lhe tolhia os movimentos. Não era a primeira vez que via a mulher perdida, como se a vida se tivesse esvaziado de sentido. «Acho que tens mesmo de consultar um médico, Gusta», disse-lhe em surdina, calculando a reacção dela. «Disparate! Só porque no outro dia perdi a carteira, e agora isto, já estás a fazer de mim uma tonta!» José hesitou antes de falar. Mas acabou por atirar, quase desapiedado: «Perdeste a carteira, mas depois encontrámo-la dentro do frigorífico, lembras-te? Lembras-te Gusta? Acho que por uma vez tens de me dar ouvidos. Alguma coisa não está bem.»
O medo. Um medo gélido começou a apoderar-se de José. Sem se aperceber, começou a olhá-la de maneira diferente. A tentar adivinhar os sinais. A seguir-lhe os passos. A corrigir-lhe as falhas. A avisar os filhos: «A vossa mãe está doente.»
Um dia, folheou os álbuns de fotografias como se soubesse já que folheava o passado. Por seu lado, Augusta parecia cada vez mais distante. Mais fria. Oscilando entre a agressividade e a indiferença. A par e passo, emudecia. Desprendia-se de tudo e de todos, numa despedida que, sem o ser, já o era.
Apesar das suspeitas crescentes, José Imaginário entrou em choque quando ouviu o diagnóstico do médico: «Infelizmente, a sua mulher sofre da doença de Alzheimer.» De quê? Como? Porquê? O que seria dela? O que seria dele?
«É uma doença degenerativa que…» A incompreensão das palavras do homem de bata branca. «Os doentes tornam-se incapazes de realizar qualquer tarefa, deixam de reconhecer…» A voz do médico a extinguir-se, a eprder a lógica, a razão. O tecto mais próximo, cada vez mais próximo, as paredes a chegarem-se, a esmagarem-no, a névoa. O medo."
«Tive tanto medo. Tanto. Na altura, o médico deu-lhe seis meses de vida. Uma parte de mim morreu ali.» José baixa a cabeça. Retira do bolso um lenço branco e procura afinar a voz, que insiste em tremer-lhe dentro da boca. E repete, para que não restem dúvidas: «Uma parte de mim morreu ali.»
A progressão da doença foi rápida. Catatónica. Em pouco tempo, Maria Augusta calou-se para sempre. José Imaginário demorou a acostumar-se ao silêncio. E desmoronou muitas vezes, ao longe, a olhar para aquela mulher que desaparecia dele e do mundo. «Falava com ela, mas nada do que dizia parecia interessar-lhe. Afastou-se de mim e senti-o como uma facada. Amava-a tanto, amo-a tanto. Como é que se calava assim? Como podia deixar-me?»
Uma noite, um dos três filhos levantou a questão que ninguém ainda tinha tido coragem de levantar: «Talvez devêssemos considerar a hipótese de meter a mãe num lar.» José sentiu um aperto no peito. Um lar? Como um lar? «Está fora de questão! A vossa mãe fica comigo. Estamos muito agarrados um ao outro e eu sei que metê-la num lar é matá-la. E não se fala mais nisso.» E não se falou mais nisso.
José Imaginário Monteiro pôs então mãos à obra. A cadeira de rodas embatia nos móveis da direita e da esquerda, logo era imperioso retirá-los do caminho. «De qualquer modo, para que servem tantos móveis?», lembra-se de ter pensado. Um atrás do outro, foram sendo expulsos de casa armários, mesas e estantes. No final, a satisfação. A cadeira circulava. Augusta, esquecida de caminhar, olvidada de fala, obnubilada de tudo e de todos, avançava, indiferente, pela casa. Mas José sentia-o como uma vitória. «Vamos, Gusta. Vamos até à casa de banho tomar um banhinho, sim?»
A doença de Alzheimer tornou-se a sua obsessão. Pediu livros sobre o tema, estudou a fundo os sintomas, os sinais, as consequências. De noite, quando Augusta já dormia e não precisava da sua atenção, ligava o candeeiro pequeno e folheava os livros como em véspera de exame. Tornou-se um especialista. «Cheguei a alertar o médico para determinados problemas que ele desconhecia. E foi assim que inventei os mapas.»
Os mapas. Folhas e folhas de valores medidos desde finais de 1990. Há 16 anos que lhe mede a temperatura três vezes ao dia, há 16 anos que anota tudo num mapa: temperatura, nível de glicemia, horas a que urina, dias a que defeca. Folhas e folhas de valores que o sossegam sobre a saúde da sua Augusta. Folhas e folhas de números que lhe justificam a existência. «Ela não se queixa, não é? E ou bem que se fazem as coisas como deve de ser, ou então não se fazem.» E José faz. Só faz. É ela a sua vida. Mais nada.
Nenhum detalhe é deixado ao acaso. As medições, a alimentação – carne, peixe, fruta, tudo moído para que não se engasgue – , os medicamentos, alinhados nas prateleiras como soldados eficazes. «Este é para a tensão, este é para a diabetes, este…», o creme hidratante para evitar as escaras. «Está aqui uma pele linda! Digna de uma princesa, não é Gusta?» Foi com todos estes cuidados que conseguiu controlar-lhe a diabetes e acalmar-lhe as convulsões. Foi assim que deu cabo de uma broncopneumonia e é assim que há-de estar preparado para tudo o que ainda esteja para vir. «Tenho a certeza de que ela, num lar, já há muito que tinha morrido. Seria incapaz de a internar. Ela é a minha razão de viver. Não é, minha querida?» Augusta não lhe responde. Nunca lhe responde. Há 16 anos que esqueceu as palavras, os gestos, os movimentos. E, no entanto, ele prossegue. «Ligo sempre a televisão para ela se distrair. Não sei se se distrai ou não. Nem sei se ela a vê. Ou sequer se ouve. Mas faço de conta. Engano-me. E falo muito com ela.» José nunca mais saiud e casa. Há 16 anos. «Nunca mais fui a lado nenhum, não, senhora. Nem a casa dos meus filhos, nem às festas dos meus netos, nem aos natais… tenho muita pena de nunca mais ter ido à campa dos meus pais… Se calhar, estou a maçá-la. É que passo muito tempo aqui sozinho, sem falar com ninguém. Depois, já se sabe, arranjo companhia e nunca mais me calo. Desculpe, sim? Provavelmente, quer ir à sua vida…» Os dias passam, iguais, aterradoramente iguais. O bulício da cidade ser-lhe-ia agora estranho; tanto tempo confinado a quatro paredes fez que se tenha esquecido também de como fervilhavam de vida as ruas. «Não a deixo sozinha, não é?» Só nos dias em que a empregada vem é que aproveita para ir, de passo ligeiro e coração apertado, à mercearia mais próxima. «Então, diga lá, Dr. José, o que vai ser hoje? A sua senhora está melhor?» Melhor. A pergunta a fazer rir. Batatas, carcaças, um pacote de papa. «Na mesma, na mesma. É assim a vida. Faça-me lá a continha. Tenho de ir.»
Em casa, o mesmo vazio de todos os dias. O mesmo silêncio. Nas paredes, há sorrisos pendurados, sorrisos perpetuados e imóveis, pedaços de felicidade que hoje dói. Sorrisos de um tempo em que se sorria. Às vezes, José olha-os e não reconhece aqueles instantes, aqueles anos, aquela vida. É como se já nem tivesse a certeza da veracidade daquilo, como se os sorrisos pendurados nas molduras fossem recortes de revistas, e não sorrisos que tenha realmente chegado a sorrir. «Às vezes, ponho-me a pensar: como era a nossa vida antes de ela adoecer? E é então que percebo que já não me lembro. Já não sei. Lembro-me de que ela era um bocadinho teimosa, que ralhava muito comigo, e eu calava-me para não arranjar conflitos. Mas, do resto, da felicidade, da nossa existência antes disto… já não consigo lembrar-me.»
Durante a noite, José Imaginário continua desperto, vigilante. «Se a sinto a estremecer, levanto-me logo para ir buscar o remédio contra as convulsões.» Mas não são só as convulsões que o afzem levantar-se, sempre, de três em três horas. «Como ela tem diabetes, preciso de lhe estabilizar o açúcar no sangue, não é? Por isso, acordo de três em três horas para lhe dar qualquer coisinha para comer… É duro. Mas ela, coitadinha, precisa. Não é, Gusta?»
No dia 2 de Dezembro, Maria Augusta adormeceu num sono mais profundo que os outros sonos. «Está murchinha ela, hoje. Nem acorda…» Gusta não tornou a acordar nesse frio dia de Dezembro. José tocou-lhe na cara, beijou-lhe as mãos: «Então, minha querida?» Às 5 da tarde, a confirmação do médico: «Lamento muito, mas a sua esposa…» O coração descompassado, desvairado, louco. A voz do médico a extinguir-se de novo, a perder a lógica, a razão. O tecto mais próximo, cada vez mais próximo, as paredes a chegarem-se, a esmagarem-no. A solidão de um herói sem ter quem salvar todos os dias.
Coração de chocolate
Aquela carta, aquele coraçãozinho, foram os melhores presentes que já tive. A eles nos agarramos quando a saudade dói mais.
Quando nos nasce um filho, sonhamos para ele um mundo de venturas, fascinantes sonhos de pais encantados com tão pequenino e frágil ser, o nosso «dez réis de gente». Vai crescendo e protegemo-lo, quais cavaleiros andantes, de todo e qualquer mal que se aproxime. Se se constipa, recorremos logo ao arsenal de remédios e mesinhas das avós, chás e canja de galinha, até que o pimpolho recupere a saúde e as cores. Só assim respiramos, aliviados. Se cai e esfola um joelho, entramos logo num combate frontal com as bactérias que possam querer ser mais rápidas do que nós, e anulamo-las com todo o tipo de tinturas. Ver crescer o nosso menino, forte, traquinas e brincalhão, vê-lo entrar para a escola e tornar-se aos poucos num pequeno génio a Matemática, tratar a Química por tu. Escutar vezes sem conta os acordes que ele arranca ao piano e exibi-lo perante os amigos: «Vá, filho, toca lá a Primavera de Vivaldi para a tia ouvir!» Enche-se-nos o peito de orgulho, a nossa criança, o nosso menino intocável já tão crescido. Até que um dia… «Mãe, dói-me tanto a perna…» Corremos logo aflitos ao médico. Exames, exames, exames. Espera aflitiva. Depois, o veredicto: «Não, não, não quero ouvir, doutor, não é verdade, diga que não. O senhor enganou-se, não foi? O meu filho não pode estar tão doente, não pode ser…» Mas foi. O menino, aquele que com tanto cuidado protegemos, está doente. Revolta. Noites sem dormir. Estradas de medo e vales de angústia. Lágrimas salgadas que correram meses a fio e que fizeram secar a fonte. Mãos que acariciaram docemente o menino e lhe deram esperança: «Vais conseguir!» E chegou Maio de 2000. Era o primeiro Domingo, dia de todas mães. Hospital de Santa Maria. Entro no Serviço de Hematologia. É lá que está o meu filho, agora com 15 anos, que, depois de várias sessões de quimioterapia, horrível recessão pulmonar e muito medo, está no isolamento a recuperar de dois transplantes de medula óssea. Dispo a minha roupa e visto uma especial, desinfectada, própria para poder entrar no quarto, à prova de bactérias. Passo as mãos pelo desinfectante, coloco a máscara e entro de mansinho no quarto. Está a dormir, o meu menino de ouro. Silêncio total, apenas interrompido pelo zumbido do filtro HEPA e o toque das bombas de infusão presas ao cateter, ligado ao coração. Pressentindo a minha presença, abre os olhos e senta-se na cama, o sorriso iluminado o rosto pálido e tão magrinho: «Mãe, estás aqui?» Estende o braço até à mesinha ao lado da cama e pega num pequeno embrulho com um laço branco que me entrega, ao mesmo tempo que me abraça desajeitadamente e diz, sorrindo: «feliz Dia da Mãe!» Surpreendida e emocionada, digo-lhe: «Lembras-te do dia de hoje?» «Claro. Achas que podia esquecer? Abre lá o presente para veres se gostas.» Era um postal com várias flores e uma frase ondulante: «Juntos seremos fortes.» Também uma pequena carta escrita por ele e que dizia: «Mãe, gosto muito de ti. Obrigada pela dedicação e carinho da mãe que tens tido comigo e com os meus irmãos todos estes anos. Espero que este dia se repita e desejo-te muitas felicidades junto da tua querida família. Sem ti não seremos felizes, e o nosso amor por ti não tem fim. Quero que saibas que, mesmo quando estou longe, tu estás sempre no meu coração. Um abraço e muitos beijos do teu…Claúdio. PS. Quando olhares a imagem do postal, lembra-te de nós.» Junto, estava um pequeno coração vermelho, de chocolate, que dizia: «Este é o meu coração.» Quando acabei de ler, as lágrimas corriam, quentes, pelo meu rosto, a mão doce e febril do meu filhinho acariciava as minhas, frias de comoção. Foi o melhor presente que já recebi. «Vou sempre recordar este dia. Quando tudo isto terminar e ficares bom, vamos pensar neste momento com alegria.» E encostei a sua cabeça sem cabelo ao meu peito coberto pela bata verde e rija, e embalei-o, tal como fazia quando ele era pequenino. A emoção que ambos sentimos naquele instante foi tão intensa que não conseguimos mais falar. Os nossos corações desejaram que aquele momento parasse no tempo. O Claúdio morreu no dia 28 de Junho de 2001. Era tão corajoso… Nunca se rendeu nem desistiu. O seu coração deixou de bater, mas o pequeno coração de chocolate, doce como ele, continua a ser a recordação do carinho de um filho pela sua mãe – as suas palavras são o bálsamo que toda a família procura nas horas de maior saudade. Nos sonhos que tecemos para os nossos filhos, não há lugar para a dor de uma vida interrompida. Mas há frutos que amadurecem primeiro e nem a força da árvore Mãe é suficiente para mantê-los junto a si. No tronco permanecerá a marca do fruto que ali nasceu.